terça-feira, 2 de julho de 2019

Canção da Noite ou Prelúdio ao desalento


Consome-nos, o tempo;
Sopra-nos, o vento;
Esfriam-nos, o relento;
Encontram-nos, 
sem lenço e sem documento.

Contratam-nos, 
por determinado tempo;
Desafiam-nos, tormento!
Descartam-nos, à contento;
Encontramo-nos, ao relento, 
sem lenço e sem documento.

Atrás de um paradeiro para o meu pensamento;
Viagem louca e um sorriso posto ao vento.
O abstrato do quadro é visível no relento.
Por mais que o tempo voe, para mim caminha lento.
Abismado como um cão que rosna sedento,
Pronto para impor que a presa és o alimento.
E até que tenha fim o meu sofrimento,
Canções virão da noite - como bêbados, lentos;
Virão com a mesma graça que há no relento;
Virão do mesmo lado que me expus ao vento;
E lá verão que o tempo passa mesmo lento;
Tão lento que o cão i'nda rosna sedento.
Cultivando a dor no peito do seu alimento.
Tão cultivada é a dor, que há raiz por dentro;
Cativo-me menos a cada andor que carrego em meus ombros tensos...
Cativo-me menos...
Hélder Menezes

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