terça-feira, 2 de julho de 2019

Desgraceira no caminho da feira

Foi só despontar na esquina que, olhando de "restrivela-mondrongo", pude identificar o que vinha de lá. E vieram todos, desvalidos, pelas vagas das estradas poeirentas e sarapintadas de buracos. A poeira acabara modificando a pintura do transporte; muitas vezes, pelas poças que se encontravam no meio do caminho, a poeira se fez lama, e tapou alguns buracos na carroceria da velha caminhonete. Havia chovido no dia anterior, mas mesmo assim, a estrada era poeira só, como disse, com algumas poças lamaçadas. Perto destas, bostas de bois, pisadas pelos mesmos e por gente que por ali andavam, descalços. Misturavam-se em trecos, e cruzavam-se em outros, assim, marcas de pneus, pés e patas, de modo que, nem mesmo Sherlock Holmes poderia, com seu faro detetivesco e olhar arguto, atribuir alguma razão para tais trajetos.


O caminho era margeado por poucas árvores. Havia, contudo, entre as árvores, e margeando também a estrada, bastante mato, o que formava uma espécie de parede, muro, uma cerca natural, cerca viva, como dizem. Pelo pó da estrada de chão batido, vermelho, que era levantado pelo passar vagaroso dos transportes automotores, a cerca natural estava em rubra cor, de modo que, quem já tivesse ido à Marte, e feito um "tour" por lá, poderia facilmente comparar os caminhos e pensar mesmo que estava em Marte. Folhas salpicadas de lama, em "degrade", iam pesando nos finos caules, como a sujeira nos pesa na alma. Era lama e alma; a primeira pendendo-se e a outra se desprendendo, pois que, na natureza do Ser, ambas não convivem juntas. Mas não era só. Os transportes automotores, ainda mais aqueles que eram vizeiros pela região, transportando cargas e pessoas (ou cargas de pessoas, carregando pessoas como quem carregam cargas), pelo estado dos motores, sem falar na chaparia (camuflada pela lama), soltavam seus gases e deixavam fuligens oleosas nas folhagens. Então eram lama e óleo num amor tóxico a sufocar a alma, a pesar-lhe os finos caules e a estragar-lhes os frutos; a tornar-lhes, os frutos, ainda mais silvestres. Por isso, pelo óleo, a lama custava a sair, sendo percebida, ainda, dias depois, mesmo que chovesse.


Vendo aquelas pessoas, que foram transportadas como cargas, percebe-se claramente que em suas almas, tal como descrito sobre as folhas, misturavam-se pó (que pelo suor se faziam lama) e óleo (que pelo suor se fazia). Pelo tempo, a lúgubre mistura se fazia crosta e esta era indesejável aos olhos dos que esperavam seus legumes e hortaliças livres de agrotóxicos. Evidentemente que me refiro às crostas formadas nas pessoas, pois que as verduras e hortaliças não eram transportadas como pessoas, que recebiam, assim como as coisas, o pó da estrada e o óleo dos motores. Vinham, as verduras e hortaliças, em caixas impermeabilizadas e com forros acolchoados, pois, afinal, nem sujos nem amassados eram aceitos. E não eram bem aceitos, os homens e mulheres com crianças à "tiracolo", amassados e empoeirados pelo caminho "desgracento" pelo qual, na cidade, chega todo o alimento.


Ficaram, pois, pela estrada desgracenta que conduz à feira, as poças de lama e as bostas de boi, bem como, nas bordas destas e daquelas, as funduras das marcas das patas; as pegadas que, por falta dos calçados, permitiram ver que eram de homens, ou mulheres, e crianças; e, por fim, as insensíveis marcas dos pneus dos automóveis que cortam o sertão, de dentro a fora, numa desforra sem intenção de machucar.

Mas, não obstante o ranger renhido do velho carro de boi, hoje obsoleto, monumento sertanejo do progresso de outrora, quando a aurora era ainda anunciada pelos cantos dos galos (que ainda teimam em tais estribilhos), os elementos que tornaram a estrada desgracenta, podem ser percebidos no descer da multidão que se aglomerava na boleia do velho caminhão abarrotado de gente e coisas.

Muito agitada, cheirando ainda à fumaça que saia dos fogareiros acesos ainda àquela madrugada, foram enxotados do velho caminhão pelo grito do condutor que, agora, pedia calma no tratamento com as caixas de verduras e hortaliças que seriam comercializadas na feira. O valor do pregão já havia sido anunciado uma semana antes, num acordo tácito e taciturno entre o fazendeiro e o “dono” da feira. Os pobres diabos, no entanto, ainda tinham esperanças de que as coisas melhorassem, pois não ligavam mesmo para qualquer tipo de cotação que não fosse baseada, pensando, no fundo, no trabalho que deu para plantar, esperar, cuidar e, como sem medida na alegria que dá, colher os frutos do trabalho duro - como dizem.

O trabalho começou, efetivamente, quando o mestre da turma, um caboclo tido como besta pelos demais trabalhadores, disse quais deles iam ficar em cima do caminhão, pegando os caixotes, com cuidado para não quebrar e amassar os produtos, e quais iam, tendo os mesmos cuidados, ficar recebendo nos ombros, cada vez mais doídos, os pesados caixotes que, ainda por cima, por sacanagem mesmo dos próprios companheiros de desgracença, eram soltos, acarretando num pouco mais de peso aos mesmos e aos ombros. Esse soltar dos caixotes, só quem sabe mesmo é quem já teve que, em baixo, segurar algo para alguém que está em cima, como quem, num bater de uma lage, recebe baldes cheios de concreto num sentido inverso, ou seja, descendo.

E os trabalhadores não tardaram a mostrar ânimo pelo serviço, pois que as zangas, causadas pelos "soltar" dos caixotes, logo se tornaram motivos para risos, como acontece mesmo quando se bate uma lage e o peso dos baldes e a fadiga do mexer o concreto, são repelidos pelos apelidos e brincadeiras de toda sorte, bem como pela cachaça de graça que se bebe escondida, quando não se pode beber antes que o dono ofereça, para esquentar o sangue. E bebiam sim. Caíam-lhes, nos lábios, o suor. O suor misturava-se, com efeito, ao pó (àquele que pensavas terem eles deixado pela estrada), tornando-o amargo e só. Somente amargo era o gosto da bebida que passava "escondida", pelas vistas grossas do besta do caboclo que tinha sido feito chefe de turma não havia muito tempo. O achavam besta pelos modos que há pouco lhe afiguravam a pessoa, pois era o que dele, agora, se exige o chefe.

Por onde ficaram as crianças e mulheres, que, não tendo força para aguentar nos ombros, elas, e, não tendo altura, eles, ficaram, até aqui, fora do descarrego do carro?

Para nós

Nós, que chegamos tarde,
..........que amamos pouco,
............que acordamos cedo,
..............que vamos com fome.


Nós, que andamos muito,
.........que falamos rouco,
...........que tossimos seco,
.............que escarramos nomes.

Nós, que olhamos tristes para o fim da noite;
Que choramos tanto ao raiar do dia.
Nós, que bebemos e fumamos como condenados;
E que nos condenamos em cada poesia.

Nós que ferimos, gente;
........que fingimos, louco;
..........que fugimos, medo;
Nós, que consumimos,
.........que assumimos
...........que sumimos
.............que mimos...

Nós, que se tomarmos tento,
.........que há tempo entornamos,
...........caminharemos, lentos;
.............caminharemos, vamos?
Nós, que nos falamos, rápido!
.........que nos conectamos, lógico!
...........que nos mostramos, gráfico.
Nós; mas como é que nós estamos,
.........se rápido nos falamos;
...........se, lógico, nos conectamos e,
.............se gráficos nos mostramos?

Helder A. Menezes

Canção da Noite ou Prelúdio ao desalento


Consome-nos, o tempo;
Sopra-nos, o vento;
Esfriam-nos, o relento;
Encontram-nos, 
sem lenço e sem documento.

Contratam-nos, 
por determinado tempo;
Desafiam-nos, tormento!
Descartam-nos, à contento;
Encontramo-nos, ao relento, 
sem lenço e sem documento.

Atrás de um paradeiro para o meu pensamento;
Viagem louca e um sorriso posto ao vento.
O abstrato do quadro é visível no relento.
Por mais que o tempo voe, para mim caminha lento.
Abismado como um cão que rosna sedento,
Pronto para impor que a presa és o alimento.
E até que tenha fim o meu sofrimento,
Canções virão da noite - como bêbados, lentos;
Virão com a mesma graça que há no relento;
Virão do mesmo lado que me expus ao vento;
E lá verão que o tempo passa mesmo lento;
Tão lento que o cão i'nda rosna sedento.
Cultivando a dor no peito do seu alimento.
Tão cultivada é a dor, que há raiz por dentro;
Cativo-me menos a cada andor que carrego em meus ombros tensos...
Cativo-me menos...
Hélder Menezes

Entre isto e, ou, aquilo


Entre isto e, ou, aquilo, e ficar desempregado, o que escolher? Como se estivesse numa corda bamba, e de fato está, recorre aos seus demônios internos, e aos deuses externos (posto que parece que são muitos), cultuados por todos, sem exceção, pelo menos naquela seção.Oh, tristes daqueles cuja servidão segue conforme o prodígio, e torna-se voluntária. Tristes daqueles que conseguiram, à custos e sem prazo, bancar sua servidão. Uma servidão que não mais a do Medievo, mas que me dá medo, mas que me dá medo!

Mas não vamos nos desesperar, ainda, e não há pelo quê, pois que entre o Inferno e o Paraíso de Alighieri, existe um lugar de suplícios um pouco mais amenos, assim digamos.Mas não irei iludir você, infeliz leitor. As penas são pesadas, o passado volta sempre a nos cobrar num círculo vicioso, num pesadelo sem fim. Pesadelo sem fim, mas com som: gritos horrendos ecoam via colinas bastante íngremes, escarpadas no que, de longe, parece as costas do Tempo (de Cronos, para alguns).

Sim, o cenário é Dantesco, enfim! Lá não tem fim, mas tem som e, sim, tem cores. Estas são as mais desbotadas que seus, agora, tristes e chorosos olhos jamais viram, e suas desfiguradas faces hão de encarar. É preciso, pois, caro leitor, encarar a realidade e se jogar... no trabalho!Mas não vamos nos desesperar, ainda, e não há pelo quê, pois que entre o Inferno e o Paraíso de Alighieri, existe um lugar de suplícios um pouco mais amenos, assim digamos.

Não irei iludir você, infeliz leitor. As penas são pesadas, o passado volta sempre a nos cobrar num círculo vicioso, num pesadelo sem fim. Pesadelo sem fim, mas com som: gritos horrendos ecoam via colinas bastante íngremes, escarpadas no que, de longe, parece as costas do Tempo (de Cronos, para alguns).Sim, o cenário é Dantesco, enfim! Lá não tem fim, mas tem som e, sim, tem cores. Estas são as mais desbotadas que seus, agora, tristes e chorosos olhos jamais viram, e suas desfiguradas faces hão de encarar. É preciso, pois, caro leitor, encarar a realidade e se jogar... no trabalho!

Hélder Menezes

sábado, 30 de junho de 2012

Na proa de um navio negreiro


Vamos dizer que o tráfico negreiro não acabou
Vamos dizer que te respeitam “neguinho” por tua cor
É sempre uma cara feia alheia ao seu sentimento
Gritos virão do gueto e não mudamos de comportamento
Mil e quinhentos, e ainda usam os mesmos argumentos
...
Para uma história mau contada e sem fundamento
Um vício a ser mantido, ou uma corrente a ser quebrada?
O preço da abolição pago com chibatadas
A face forte, e os ideais de um revolucionário não morrem (não conseguiram acabar)
Com o olho aberto, e o sorriso, mesmo após a morte: se não perdermos a ternura, assim seremos fortes!
De antemão já vou dizendo, louvável o sentimento: se rebelar contra um poder imenso, e a dor.
Baixem as velas dos veleiros, escravos prisioneiros, estamos mantidos em Salvador.